quarta-feira, 15 de outubro de 2014

"PRÓPRIO"

"PRÓPRIO"

Queimamos os papeis
Deixamos nas paredes musgo
Em cinzas rezamos a Deus as nossas dores
Carregamos as horas que já deixaram de ser nossas
Palavras estreitas e fortes do mundo
A noite mordia no escuro
Enchia de pedras as sombras queimadas
Ouvia o silencio de olhos abertos
Sem um rastro de esperança
Mortalha umbilical, presença de mim próprio
Rezei, implorei, no final esqueci o porquê?
A carne que roí-se a si mesmo lentamente
Um canto, um pranto escondidas do vento
Onde mordeu os beiços da nossa própria dor
Soluços que perfazem anjos de carne
Filhos que vergam, sujos de sangue que não o nosso
Impenitente fogo queimado, como sujo dos lobos
Na miseras noites engavetadas de um túmulo de ventos apertados
Rotas cartográficas da serra descendo o rio, até aos eucaliptos
Queimamos e rasgamos os papeis que escrevemos
Onde só deixamos cinzas no corpo, tantas vezes na nossa própria alma!

 Isabel Morais Ribeiro Fonseca