segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"UM SÓ CAMINHO"

"UM SÓ CAMINHO"

Um só caminho de uma alma doente
Dum receio tantas vezes prematuro
Caminhante sereno, rosto marcado
Pelo sofrimento da vida, tão vivida

Madrugada orvalhada de sonhos cruéis
Embebido nas arestas do futuro
Com medo das saudades do presente
Desta dor que em vão procura
Onde cobre o coração dum escuro véu
Alma de luz desgrenhada
Caminho de uma jornada
Amiga aurora da manhã, eu te saúdo

Neste caminho de fragas, giestas, estevas
Desçamos o monte, a serra juntos
Bebamos juntos o vinho doce de morangueiro
Com um travo suave a alecrim

Espinho encontrado de escombros
Onde encontro-te no caminho, tão só, tão sozinho
Repartamos os dois o mesmo vinho
Amargo da nossa jornada

Taberna escura cheia de amargura
Secura na alma, no corpo doente
Prematuras sombras, frias e cruéis
Calvário onde choramos o mesmo pranto

Das saudades, já esquecidas, perdidas
Caminhante sereno, rosto marcado
Pelo sofrimento da vida, num só caminho
Embebecido nas arestas do presente sem futuro.

Isabel Morais Ribeiro Fonseca

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

"PASTOR"

"PASTOR"

Repousa o cego perdido por culpa merecida
Geme de frio, suspira, suspira a saudade
Chora, chora a chuva toda a sua vaidade
Agua corrente entre seixos de ervas sombrias

Pensamento atroz, desmontado de palavras
Cansaço nas pálpebras, no vale das flores
Enjeitadas, vestidas de lindas cores no monte
Fortaleza de terra fértil, colhidas no tempo

Ardendo, queimando como se carne viva fosse
Levanta-se o vento, onde pasmo, tremo e desfaleço
Daquele amor inocente de olhos tapados, vendados
Divino entre o céu e a terra, do teu tempo encantado

Como um lindo pássaro doce canta uma melodia
Serra dura do homem pastor, amigo da mãe natureza
Alma acesa rodeada de fogo, do entardecer que me foge
No momento mais puro e seguro, amor fraco no peito

Dor no escombros, frio da guerra vivida talvez esquecida
Mente sã, corpo termo ferido, mar morto, em fim de vida
Pecados seus, lembranças suas, tão firmes de esperança
Dores estranhas rasgadas em lágrimas, banhadas de confiança
Onde as mãos brandas estão cegas de miseras, cercadas.

Isabel Morais Ribeiro Fonseca

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

"TERNURA VINCADA"


Prenúncio de alva beleza
Talvez de adoração e prece
Olhei devagar para o espelho
Ele falou comigo em silêncio
Mostrou-me o tempo vivido
Vivido no meu rosto
Mostrou-me como eu mudei
Novos traços, novos vincos
Rugas que agora estão mais fortes
Por um instante não me reconheci
O meu próprio reflexo que ali mostrava
Penumbra vivem os reflexos de esperança
Na pausa da incerteza notei o meu olhar
Um pouco cansada da fúria do tempo
Do meu interior, quero um vestido de flores
Suave reticência deste cansaço
Que ainda existe o brilho de tantas coisas para ver
O meu olhar ainda está vivo
E não importa as lágrimas ou sorrisos eu dou de mim
Do outro lado do espelho existe tanto
Quando eu me imagino
Um mito de existência e de desencanto
Silencioso o meu destino
Foi o tempo do meu pensamento
Tempo que nunca será feroz e duro
Para eu deixar de ter esta importância comigo
Tempestade, vento indaguei a idade como solução
Veio o tempo dos meus olhos, da minha pele
Onde cada traço que tenho são apenas
A prova do que já vivi cheia de amor, de dor e esperança
Será que só eu vejo as mudanças do tempo no espelho, ou não!

Isabel Morais Ribeiro Fonseca