domingo, 1 de setembro de 2013

SÓ TER UMA PALAVRA

Azulejos do palácio 
SÓ TER UMA PALAVRA

Só tenho uma cara, uma palavra,
Sou como sou, dou graças a Deus
As pessoas gostam de falar
De criticar os outros
Têm medo de falar deles próprios
Vida sangrenta, suja, vazia, perdida
Moscas que picam, mosquitos malditos
Casa de pedra, fria e quente, escada de fragas
Tábuas corridas, cama de ferro, velha partida
Que geme e chia, lareira acesa mesmo no verão
Panela de ferro que fervem, vazias ao vento
Fumo que mata, coze-se o pão no forno a lenha

Vida sangrenta, vida sofrida, perdida e vazia
Feitiços irreais, fantásticos, pacientes
Líricos, anormais, coerentes, resignados
Mortos de fome, mendigos sozinhos na noite
Amanhece livremente, luzes estreladas
No céu da serra, mais alta do fogo que arde
Com que sufoca-te e morre por dentro
Água doce, quente e fresca, choupos
Loureiro, vento amargo, sentido, puro, alegre.

Isabel Morais Ribeiro Fonseca

 Palácio do Rei do lixo ou Torre do Inferno – Coina - Portugal