A depressão anda pela casa, como se fosse dona dela. Entra sem bater à porta, instala-se no sofá, deita-se na cama, e ocupa cada canto em silêncio. Mexe em tudo, como se ele pertencesse cada divisão, cada objeto, cada pedaço de mim.
Senta-se à mesa sem ser convidada, e rouba o sabor dos dias. Fecha as janelas à luz, cobre os espelhos com as sombras, e transforma o que antes era um abrigo num lugar estranho. Está presente de manhã, quando abre os olhos, e continua ali à noite, quando procura descanso.
Caminha pelos corredores com uma confiança cruel, como se tivesse a escritura da casa e do coração. Faz-se ouvir no silêncio, faz-se sentir na ausência de vontade, no peso dos passos, no cansaço da alma.
Mas, por mais que ela se comporte como dona de tudo, a verdade é outra. Esta casa não lhe pertence. Nem o sofá, nem a cama, nem os sonhos que ela tenta esconder. A depressão pode ocupar espaço, pode fazer barulho dentro do silêncio, pode até me convencer por momentos de que venceu.
Mas eu continuo aqui. E enquanto houver um sopro de esperança, uma fresta de luz a entrar pela janela, uma mão contínua ou um motivo para me levantar mais uma vez, ela será apenas uma visita indesejada. Porque a minha vida, a minha casa, e o meu coração, têm um dono legítimo, uma força que ainda resiste dentro de mim, mesmo nos dias em que quase não a consigo encontrar.
Texto de Isabel Morais Ribeiro Fonseca














